Sumário
A maioria das iniciativas de IA corporativa fracassa por um motivo simples: tenta automatizar decisões sobre uma estrutura que ainda não está pronta.
Inteligência artificial não corrige desorganização. Ela amplifica o que já existe. Se os dados são inconsistentes, se os processos variam conforme a área ou se a governança é frágil, a automação apenas acelera o erro.
Essa é a provocação central trazida por Vinicius Oliverio, CTO da Urmobo, em sua coluna na InfoMoney. E vale aprofundar o tema sob a ótica de quem precisa decidir onde e como investir.
Quando uma empresa implementa IA, ela não está apenas adotando tecnologia. Está delegando decisões.
Pode ser a priorização de chamados, a definição de preços, a roteirização de equipes, a análise de risco ou a identificação preditiva de falhas. Em todos os casos, o algoritmo passa a influenciar custo, receita e experiência do cliente.
O erro mais comum é começar pela plataforma antes de entender a decisão que será automatizada. Poucas empresas param para perguntar se essa decisão já é consistente hoje, se os dados que a sustentam são confiáveis e se existe rastreabilidade suficiente para explicar o resultado quando alguém questionar.
Sem essa base, o projeto nasce vulnerável.
Os casos se repetem com pequenas variações.
Uma organização decide usar IA para prever demanda. Descobre depois que seus cadastros são inconsistentes e que os dados vêm de sistemas que não conversam entre si. O modelo aprende com ruído. As previsões oscilam. A confiança interna desaparece.
Outra empresa quer automatizar decisões logísticas. No campo, os dados chegam incompletos porque a operação roda com dispositivos em diferentes estados, versões e configurações. Coleta irregular, políticas inexistentes, uso fora do padrão. O algoritmo até decide, mas decide mal, porque enxerga mal.
Há também o caso em que a IA entra em decisões críticas sem regra clara de autonomia. Quando surge a primeira exceção ou um questionamento jurídico, o projeto trava. Ninguém quer responder por uma decisão automatizada que não consegue explicar.
O padrão não está na tecnologia. Está na ausência de maturidade operacional e governança.
Organizações que extraem valor real de IA seguem uma ordem menos sedutora, porém mais eficaz.
Primeiro organizam processos. Garantem que o fluxo decisório faça sentido mesmo sem automação. Depois consolidam dados, eliminam redundâncias e aumentam visibilidade. Só então escalam a automação.
Em operações distribuídas, onde dados nascem na ponta, essa disciplina é ainda mais importante. Se a origem da informação não é confiável, a decisão automatizada também não será.
Aqui entra um ponto que muita empresa subestima. IA corporativa depende, em grande parte, de dados que vêm de endpoints, mobilidade e sistemas de campo. Se esses dispositivos não estão padronizados, atualizados e governados, a empresa tenta construir automação decisória em cima de uma base variável. Isso não é um detalhe técnico. É o tipo de coisa que define se a IA vai virar ativo estratégico ou projeto que morre no piloto.
Implementar IA corporativa envolve decisões estratégicas que raramente aparecem na apresentação do fornecedor.
Quanto maior a autonomia do sistema, maior o ganho potencial de eficiência. Mas também maior a responsabilidade sobre a qualidade da base e sobre o que será considerado verdade no processo decisório.
Projetos rápidos dão sensação de inovação imediata. Projetos estruturados exigem tempo e revisão interna, porém reduzem fricção no médio prazo, especialmente quando a IA começa a influenciar decisões com impacto financeiro.
Soluções altamente integradas podem acelerar a implementação, mas aumentam dependência tecnológica. Em alguns contextos isso é aceitável. Em outros, compromete flexibilidade futura.
Nenhuma dessas decisões é trivial. Todas exigem clareza estratégica.
Antes de aprovar orçamento ou escolher parceiro, a liderança deveria responder algumas questões essenciais.
Se a maioria dessas respostas for vaga, o investimento em IA provavelmente será prematuro.
A conclusão é menos tecnológica do que parece.
Inteligência artificial amplifica a qualidade da gestão existente. Empresas organizadas colhem eficiência. Empresas desorganizadas amplificam inconsistência.
A decisão não é simplesmente investir ou não investir. A decisão é estruturar a base antes de automatizar o topo. E, em muitos negócios, essa base começa onde a operação acontece de verdade, nos dispositivos, nas rotinas de campo, na governança do endpoint e na consistência dos dados gerados diariamente.
Este conteúdo amplia as reflexões apresentadas por Vinicius Oliverio em sua coluna no InfoMoney, trazendo a discussão para o campo prático da governança e da tomada de decisão empresarial.
Leia o artigo original completo aqui.